Pelo conhecimento sem fronteiras

Postado em: 26 de novembro de 2011 à(s) 15:11 por Produção  Sem Comentários

Por Réa Sílvia

O que significa Formação Livre, afinal? Partindo do pressuposto de que a Universidade é o canal pelo qual novas possibilidades de se pensar, comunicar e atuar são delineadas e direcionadas para a comunidade como um todo, é inevitável, se não imprescindível, que a troca entre saberes populares e pesquisas de cunho acadêmico se tornem o caminho pelo qual a prática cultural multidisciplinar se estabeleça como um referencial para a formação livre de um conhecimento sem fronteiras.

É nesse sentido que Ariadne Chloe Mary Furnival – professora adjunta da UFSCar com ênfase em Processos da Comunicação, traz sua experiência com as temáticas sustentabilidade, educação ambiental, informação, ciência da informação e ciência e formulação de políticas públicas – expõe as barreiras que impedem o modelo de acesso livre, já em voga nas comunidades européias, de fazer parte da realidade dos brasileiros.

Dos muros da Universidade, e de suas políticas impermeáveis e monopolizadoras de saberes, aos modelos de cultura que estreitam o mundo acadêmico e a cultura popular, Chloe contextualiza o capitalismo cognitivo da atualidade como fruto de uma hierarquia pós-modernista. Alternativa a essa postura, a professora esclarece como a expansão e flexibilização das Universidades e de seus métodos, juntamente com a Internet, podem fazer convergir novas e eficientes tecnologias por uma participação implícita, redes sociais, e explícita, redes públicas, da própria sociedade na construção de conhecimentos.

Partindo de discussões recorrentes, a exemplo dos direitos autorais, os quais restringem e impedem um fluxo e uma troca de conhecimentos fidedigna, Chloe tem na propagação de estratégias características de movimentos culturais autônomos e independentes a quebra de um monopólio academicista em prol de uma redistribuição e complementação de conhecimentos. É nesse fluxo de pensamento que a construção de um repositório digital interno, tal como o Cielo, o CAPS e revistas como plataformas, fazem parte de um projeto de conscientização e sensibilização ao acesso aberto como uma forma de dar maior visibilidade e relevância à disseminação do conhecimento livre.

Apesar disso, é justamente a incoerente mentalidade de pequisadores acadêmicos, há muito limitados ao seus comodismos e preconceitos, que está a impedir o livre acesso instrumental e útil de seus conhecimentos. Foi partindo da expectativa popular e acadêmica, em fluxo com a busca e a construção de caminhos autônomos e alternativos, que Célio Turino, ex-secretário Municipal de Cultura de Campinas e ex-secretário de Cidadania Cultural no Ministério da Cultura, trouxe para a mesa suas intenções pessoais e profissionais com relação a implementação do projeto Programa Cultura Viva e sua consequente multiplicação pela América Latina.

Contextualizando o Brasil atual em meio a uma luta de classes personificadora da repercussão do sistema capitalista, Turino traz à tona a necessidade da legitimação de uma hierarquia transversal que inclua, não só a camada urbana marginalizada, mas também a sociedade rural, as aldeias indígenas, os quilombos e quaisquer outras comunidades que ainda estejam aquém do processo de culturalização integrada pelo país.

Expondo um rico trecho de seu recente lançamento, “Ponto de Cultura – O Brasil de Baixo pra Cima”, Turino retomou o período em que Nova Olinda e o Norte da África coexistiam lado a lado como uma forma de ressignificar a percepção que delimita a existência de um Brasil formal e um Brasil subterrâneo. Partindo de uma etnogênese constante, Turino coloca como a instituição de um padrão de consumo que normatiza preferências e vontades traz à tona um condicionamento operante através da mercantilização de desejos e sonhos aos quais são submetidas comunidades que tem suas idiossincrasias transformadas em normatizações.

Da construção de um herói brasileiro em defesa de um território do comum, embora ainda em formação de caráter, como Macunaíma, surge a necessidade de se pensar um sistema que incite de forma autônoma um outro olhar sobre o conhecimento popular na construção de uma política de extensão. Uma vez que o ato de transformar a vida em coisa impede que um modelo positivo construtivista venha à tona por meio do diálogo, a própria disputa por recursos públicos e sua consequente sustentabilidade se torna uma problemática, quando se tratando da distribuição dos recursos em função da sociedade e não do Estado.

É nesse sentido que, tendo em vista que 70% da produção agrícola brasileira provém de agricultura familiar, enquanto os agronegócios no Brasil são subsidiados para exportação, uma nova relação com os modos de produção vigentes no país se faz necessária aos olhos do ex-secretário de Cidadania Cultural. Do comércio justo e do consumo consciente ao trabalho colaborativo e o livre acesso, é a constituição de uma Economia em função da Cultura, e não o contrário, como enfatiza Turino, que coloca as redes de sustentação ambientais e culturais – Pontos de Cultura e os coletivos – como primordiais na reestruturação de todo o sistema.

Visto que o Estado não é metafísico e que a autoridade a ele conferida deve ser ressignificada em função de uma democracia real, a transformação de um consumo mercadológico em relações orgânicas de troca, segundo Turino, parece ser a única forma de impedir a “pilantropia” de um pequeno grupo que se apoderou do Estado por mecanismos de controle de cunho absolutamente financeiro, vide o apodrecimento da essência dos partidos políticos.

Dito isso, Turino afirma que é apenas através de uma contra posição que proponha um senso de solidariedade e fraternidade a um sistema que torna o conhecimento abstrato e inacessível – como uma forma de canibalização do sentido da vida – que pequenas reformas com grandes impactos socias, a exemplo da Reforma Agrária, se fazem essencias para a efetivação da vida e da evolução humana em prol de um bem comum.

Declaradamente radical e comunista, tendo em vista a real significância desses termos, Turino tem na revolução da linguagem uma forma de controle, o paradigma para a compreensão de como incluir a população nas discussões que o Estado toma como integralmente suas. Nesse sentido, a construção de um imaginário que incite a responsabilidade política da população brasileira para consigo mesma através de uma correlação de forças que estabeleça uma mediação entre saberes, se faz primordial para a captação e compreensão do momento histórico em que vivemos por toda a sociedade.

Por fim, é contextualizando pontos de vistas parlamentares e sociais, que Turino questiona a dominação hierárquica que rege até mesmo os contextos universitários, tal como no recente caso da USP, em que, por falta de conhecimento de como atuar de forma fidedigna, universitários acabam por ficar ”em si mesmados” por não articularem em função de um posicionamento que represente, de fato, a democracia real. Ou seja, se a revolução vem de baixo para cima, porque não assumir as próprias incoerências e começar a transformação por elas? Afinal, é na própria Universidade, outrora referência cultural, que até mesmo uma cultura massificada tem uma repercussão sem fronteiras.

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